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Athos Damasceno fala sobre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição 17 | 05 | 2008

Posted by Velha Capital in Igreja Nossa Senhora da Conceição, textos.
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Do livro Artes plásticas no Rio Grande do Sul de Athos Damasceno (1902-1975) transcrevemos o trecho que se refere à Igreja de Nossa Senhora da Conceição:

Por sua sobriedade, solidez e porte, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, de Viamão, é das mais referidas e gabadas do Rio Grande do Sul colonial.

Projetou-a o Brig.ro José Custódio de Sá e Faria, à época no governo do Continente de São Pedro, a que prestaria serviços relevantes no campo da engenharia civil, militar e religiosa. Ao então coronel de engenheiros, cujas atividades entre nós emparelham com as de Alpoim, Róscio e outros e que em 1870 [sic – leia-se 1770] viria a projetar e administrar, no Rio de Janeiro, as obras do templo da Santa Cruz dos Militares, deve o Rio Grande, com efeito, vários trabalhos importantes, destacando-se, a par de levantamentos topográficos, memórias, fortificações, etc., ainda o traçado das igrejas de Triunfo e Taquari.

Da execução do risco da Matriz de Viamão encarregou-se o construtor e mestre de carpintaria Francisco da Costa Senne que, após contrato feito com o Vig. Baltazar dos Reis, o governador da Capitania e o provedor Bento Manuel da Rocha, segundo consta da fl. 5 do Livro I, da Irmandade do Santíssimo Sacramento, existente nos arquivos da paróquia, deu início às obras em 1766, concluindo-as em 1769.

Tratando dessa igreja em seu livro Vida de Rafael Pinto Bandeira e carregando um tanto nas cores, assim a descreve Alcides Cruz: “O grandioso templo, de duas torres, tem a frente voltada para o noroeste. O interior ricamente artesoado de obras de talha, ricos lavores e viçosos dourados guarda eloqüente expressão de seu antigo esplendor e da grandeza do povo metropolitano que até no deserto hemisférico austral veio plantar esse derradeiro padrão de sua fé. Ao fundo, em majestoso entrelaçamento de entalhaduras, ergue-se o suntuoso altar-mor, onde N. Sra. da Conceição ocupa o centro, ladeando-a pela esquerda N. Sra. do Parto e pela direita Santa Rosa. Seis altares suntuosos, dispostos a três por lado, decoram com imponência as paredes internas desse templo planejado por mão de militar, o que o frontispício e todo o conjunto exterior vagamente confirmam. O interior da igreja revela o gosto fantasioso do artista de talento que o decorou — o exterior atesta a severidade e o espírito prático do soldado adestrado em mais de uma edificação de obras militares e sacras”. Continuando em sua descrição, acrescenta: “Os altares alojam as seguintes imagens: N. Sra. das Dores, ladeada de São João Batista e São João Evangelista. Aos pés da Senhora, dentro do altar, fica São Caetano, que é obra de arte sem par em toda a estatuária hagiológica do Rio Grande; ele traz sobre os ombros uma estola primorosamente colorida e empunha um crucifixo de prata de requintadíssimo lavor. No segundo altar está N. Sra. do Rosário, ao centro, e, como guardando-a, São Francisco de Paula e São Benedito. O terceiro altar é de São Miguel e nele se anicham São Francisco das Chagas e Santo António. Segue-se, ao lado oposto, o altar do Espírito Santo, no qual se admiram São José e São Manoel, este mui deturpado pelo tempo: — tem o escudo no chão, à direita a armadura e, à esquerda, também no chão, o capacete. O outro altar é de Santa Ana, que tem de um lado Santo Izidro e do outro São Joaquim. Finalmente o último é o de Santa Luzia, ocupado também por Santa Bárbara e Santa Quitéria. Na sacristia pode venerar-se uma Senhora da Soledade, pintura a óleo, sobre uma delgada elipse de cobre em velha moldura dourada. Gasta dos anos, abandonada a um canto, incompreendida no seu imenso valor artístico, atrai a curiosidade do visitante, fazendo-o conjeturar sobre qual a idade dessa misteriosa obra-prima do pincel dos séculos passados”. Concluindo, diz: “Todo esse templo encerra valioso tesouro de prataria, pedrarias e demais produtos da ourivesaria antiga, consoante o costume colonial de século e meio atrás, quando havia mais gosto e a crença reconfortava as gerações varonis de antanho. Até os sinos têm, no bronze sonoro dos bordos, delicadíssimas silvas e desenhos litúrgicos traçados por mão artística de fundidor inteligente. Um, o que fica mais ao poente, mostra as seguintes inscrições: Ecce Crucem Domini — Fugite Partes Adversae. Em baixo: JHS. Maria José, e num canto: Joannes Ferreyra Lima. Me Fecit Brachare 1789“.

Dizem que, por ocasião da Revolução Farroupilha, em 1835, a igreja foi ocupada, depredada e saqueada pelos rebeldes que, ao se retirarem dela, deixaram afixado em sua porta principal um bilhete com estas palavras: Os pobres não têm, os ricos não dão, os santos pagarão.

Não há e parece que jamais houve qualquer prova histórica desse saque bem como das depredações praticadas ali pelos revolucionários, admitindo-se, ao contrário, que o recado herético tenha sido forjado posteriormente para encobrir o desvio e desaparecimento de valiosas peças pertencentes à igreja… O que se sabe com certeza é que, àquela época, já o templo se achava bastante danificado e necessitado de reparos imediatos — reparos que só viriam a ser efetuados em 1854, quando na Presidência da Província se encontrava João Luiz Vieira Cansansão de Sinimbu, de cujo relatório, então apresentado à Assembléia Provincial, consta este tópico: “A Matriz de Viamão, uma das melhores da Província, e que foi construída à custa do povo, e principalmente de seu Pároco, o benemérito sacerdote João Diniz Álvares de Lima, ficaria brevemente arruinada, se não fosse socorrida a tempo. Depois de examinada e orçado o reparo de que carecia, confiou a Presidência esse trabalho ao cidadão Francisco José Pacheco Filho, de acordo com o respectivo pároco, o qual com o zelo que lhe é próprio deu todas as providências para isso, e mediante a despesa de 2:198$518 réis, ficou o telhado da igreja completo e rebocado, bem como foram rebocados o fundo do frontal, e do fundo externo do corpo da mesma igreja até os telhados da Capela-mor, e sacristia. Tendo eu, porém, tido ocasião de visitar a obra e vendo ser urgente proceder também a algum reparo nas torres e escadas, assim o ordenei mandando proceder orçamento das despesas as quais são calculadas em 1:520$000 réis. Existindo parte do material empregado no primeiro conserto, e em depósito, provenientes de esmolas particulares, 390$000 réis, e resto da consignação votada por essa Assembléia 301$482 réis, autorizei ao mesmo honrado Cidadão que aplicasse essas quantias a essa nova obra, ficando a meu cargo solicitar de vós a competente autorização, e meios de pagar o pouco que faltará para sua conclusão”.

Dissemos no início desta notícia que a Igreja de Viamão é uma das mais referidas e gabadas do Rio Grande do Sul colonial. Sempre foi. Dos muitos viajantes, que no século passado nos visitaram, nenhum deixou de aludir a ela com palavras de entusiasmo. Nicolau Dreys por exemplo, em 1849, consigna em seu livro — Notícia Descritiva da Província de São Pedro do Rio Grande do Sulque seu frontispício em razão do tempo e do local, é um notável esforço da arquitetura religiosa e que pode desafiar, em comparação, as outras igrejas da vizinhança, sem se excetuarem mesmo as da Capital. E antes dele, ou seja, em 1820, já Saint-Hilaire registrará em seu famoso Diário: “O arraial compõe-se principalmente de duas praças contíguas e de formato irregular, em uma das quais se ergue a Igreja. Depois de São Paulo ainda não tinha visto nenhuma igreja comparável a essa, possuindo duas torres, bem conservada, extremamente asseada, clara e ornamentada com gosto. Pelas igrejas do Brasil pode-se aferir do quanto seria o brasileiro capaz, se sua instrução fosse mais cuidada e se tivesse alguns bons modelos para orientar-se. Quem conhecer apenas as igrejas das aldeias da França, achará que as artes em nosso País estão ainda em sua infância, dado o mau gosto das obras, o estilo bárbaro dos ornatos, a violação das regras da arte e tantos outros defeitos. Entretanto, elas não são trabalhadas por artífices que desconheçam obras-primas da arquitetura e da escultura… Mas eles não procuram imitá-las, porque as olham sem vê-las, sem poder compreender suas belezas. Não se pode concluir daí que os brasileiros possuem um maior e mais natural sentimento das artes, e que, se conquistarem cultura, ela lhes custará menor trabalho e menos esforço?”.

Referência bibliográfica:

DAMASCENO, Athos. Artes plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1971. (Província, 23). p.26-29.

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